Houve um tempo, entre meus vinte e cinco e trinta anos, em que mais aprendi. A coisa funcionava mais ou menos assim: o conhecimento pairava diante da face e eu o pegava facilmente. Absorvia-o numa pressa de porosidade que me sentia invencível. Sim, poderia ter sido qualquer coisa nessa idade: cientista, médica, roteirista, jornalista, etc. Minha mente estava aberta de um jeito e eu achava aquilo excitante. A disposição era tanta para aprender que estranhava a morbidez alheia e a vagarosidade nas descobertas das coisas. Paradoxalmente, eu também me apagava. Porque eu me debruçava sobre o conhecimento, acariciando-o até conquistá-lo. Mas eu mesma, eu de mim, nada sabia. A pista mais remota era que eu gostava de aprender. Entendo isso hoje como uma forma que, inconscientemente, criei para driblar as gaiolas em que me enfiei e fugir. Aliás, fugir era a tônica. Aprender de tudo para não pensar na vida em que eu levava. A partir dos trinta, e percebendo o quanto obedeci aos outros, o quanto quis ser o tipo certo para cada qual que me vislumbrasse, reagi. O resultado disso foi a solidão. Refiro-me à solidão de ideias, de compartilhar sentidos diferentes de vida. Então abri o cadeadinho da gaiola. Eu juro que os primeiros passos foram em uma floresta e o medo de ser engolida por algum animal escondido entre as árvores me apavorava. Mas a repetição dos dias iguais em minha mente, gotejando eficaz na memória, impediu-me de voltar à gaiola. Por que dentro das prisões, sabemos o que vai ser. É confortável porque sabemos exatamente o que vai ser. O medo é fora. O medo é ser. Então joguei-me no mar de pessoas ditas trabalhadoras do mundo. Fui me fazendo máquina, engrenagens e correias. Ajustando-me e o óleo era o soldo ao fim do mês. Mais uma gaiola, pensei. Porque é fácil se perder. Porque é fácil viver disfarçando ser um tipo. Mas o conhecimento, e essas cócegas que vem junto com ele, estavam ali. Nas axilas da mente, em cada dobra do corpo sensível ao toque. Não demorou para acontecer a primeira crise: em que me tornei e quem eu sou? Um ritmo alucinado e quem eu sou? Relatórios, horários, reuiniões, projetos. E quem eu sou? A arte, então, em todas suas nuances, foi passando feito trailer de cinema em uma mente quase turva de tão cansada por não ser. Mas eram respingos diante da rotina massacrante. Como quando o menino Totó, Salvatore Di Vita, de Cinema Paradiso, caminha rumo ao velório do pai, e vê um cartaz de filme. Ele seguia o protocolo de mãos dadas com a mãe. Mas o cartaz (a arte) o salvou durante um breve momento. Porque somente a arte nos permite saber quem somos. Ela nos devolve essa concepção e dizemos 'embrilharados': eu sou isso! Com quando lemos um poema e dizemos: eu sou isso! Ou quando ouvimos uma música e dizemso: essa música sou eu! E foi o que aconteceu: a arte foi discretamente penetrando meus dias em forma de poemas e música e películas. Mas como beber disso se o prato oferecido pelo dia após dia era o casulo do horário de trabalho somado à obrigação de continuar sem lamentações? Então houve também o tempo em que desejei ser menos inteligente. Lamentei profundamente a expansão de minha mente, pois tal feito havia me causado problemas: eu queria mais da vida e eu queria ser. Enquanto a rotina dizia que eu precisava me anular para ter. Eu desejei ser robô, feito aqueles que não pensam, não questionam, são felizes ao fim do mês. Mas a expansão da mente para fugir das cadeias aliada à graça individual construída em criança, me infiltraram a poesia e as letras. Hoje, sofro, sofro ainda e tanto. Tenho as crises já conhecidas pelos queridos próximos. Lamento não conseguir ser robô e não me conformar. Lamento quando me perco e me perco de mim e não sei mais como retomar à poesia-texto-vida que me signfica. O que mais toca e asperge nessas horas do dia é o sentido de estar aqui e o medo de não estar sendo eu mesma em todas minhas faces e formas. Ontem, ao ouvir Ian Sanson na Tarrafa Literária dizer que escritor é aquele que não deu certo em nada. Daí me vira o Fabrício Carpinejar e diz que escrever é copiar o íntimo das pessoas, ver o avesso das coisas. Peço desculpas aos meninos faladores de ontem, mas pra mim, escrever é ser. Eu dei certo em muita coisa. E não busco só o avesso das coisas. Porque existe tanta costura nessa tecitura, que o quem me provoca mais é o viés, é a dobra, é a prega. Escrever para a mô é SER. E é isso que buscarei mais ferozmente daqui pra frente.
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